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Quando o simples se torna complexo: o Exercício 24 de Roberto Farias

Foto do escritor: Maestro Roberto Farias
Maestro Roberto Farias
2 de set.
2 min de leitura

Uma pequena célula rítmica pode parecer extremamente simples. Mas o que acontece quando essa mesma célula é colocada em diferentes contextos métricos?


É justamente essa questão que está no centro do MUSICAD 2017 — Exercício 24 — Aplicação, de Roberto Farias. O exercício propõe uma investigação prática sobre a relação entre regularidade e irregularidade rítmica, demonstrando como um material musical aparentemente elementar pode adquirir diferentes significados perceptivos conforme sua organização métrica.


A célula é reiterada enquanto passa por diferentes fórmulas de compasso, como 3/4, 3/8, 4/8 e 5/8. Embora sua configuração permaneça essencialmente a mesma, sua função dentro do compasso se modifica. O que antes pode ser percebido como contratempo, por exemplo, pode assumir outra função métrica em um novo contexto.


Essa experiência coloca o regente diante de um princípio fundamental: não basta reconhecer o ritmo; é preciso compreender sua função dentro da estrutura métrica.


O exercício também trabalha com a expectativa. A célula é repetida quinze vezes, criando um padrão que tende a ser automatizado pelo intérprete. Porém, no último evento, uma pequena alteração quebra essa expectativa. O desafio passa a ser justamente evitar que a repetição transforme o gesto em automatismo.


A proposta dialoga com procedimentos encontrados na linguagem de Igor Stravinsky, em que materiais rítmicos simples podem adquirir grande complexidade por meio de deslocamentos, acentuações e diferentes organizações métricas.


Para o regente, a lição é especialmente importante: o gesto deve nascer da compreensão musical, e não apenas da repetição mec

ânica de padrões de condução. Pulsação, subdivisão, métrica, acentuação, articulação e antecipação precisam estar integrados.


O Exercício 24 mostra, assim, que a complexidade musical nem sempre está na quantidade de elementos utilizados. Às vezes, ela nasce justamente das relações entre poucos elementos.


Um material simples pode exigir um pensamento extremamente sofisticado.


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