Quem valoriza a música também precisa valorizar quem a cria

A profissionalização de uma instituição musical não depende apenas de bons músicos, regentes competentes e concertos bem executados. Ela também exige o reconhecimento de todos os profissionais que tornam possível a existência do repertório apresentado ao público. Essa é a questão central do artigo “A profissionalização da atividade do compositor no âmbito dos organismos sinfônicos brasileiros”, de Roberto Farias.
O texto discute uma contradição presente na organização de muitos organismos sinfônicos, especialmente das bandas sinfônicas: enquanto instrumentistas, regentes e equipes técnicas são reconhecidos como profissionais, compositores, arranjadores e transcritores frequentemente permanecem à margem das estruturas de contratação e remuneração.
A criação musical também é trabalho
Compor uma obra, elaborar um arranjo ou transcrever uma peça para outra formação instrumental são atividades que exigem conhecimento técnico, experiência, pesquisa e investimento intelectual. Não se trata simplesmente de escrever notas em uma partitura, mas de tomar decisões musicais que consideram as características dos instrumentos, as possibilidades dos intérpretes e os objetivos artísticos da obra.
Como destaca a reflexão de Farias, o talento não elimina o trabalho, assim como a criatividade não dispensa a técnica. O caráter artístico da criação musical não deveria ser utilizado como justificativa para desconsiderar sua dimensão profissional.
O repertório não surge gratuitamente
Um dos argumentos mais importantes do artigo é que o repertório constitui a matéria-prima dos organismos sinfônicos. Sem obras adequadamente preparadas e disponibilizadas, não há programação artística consistente nem temporadas de concertos.
Apesar disso, a produção e a aquisição de partituras muitas vezes recebem menos atenção do que outras despesas institucionais. Compositores e arranjadores são procurados informalmente, materiais circulam entre músicos sem que sua autorização seja devidamente verificada e o trabalho de criação acaba dependendo de favores ou de cessões gratuitas.
Esse modelo transfere parte dos custos reais da produção musical para os próprios criadores. A instituição pode até conseguir realizar suas atividades, mas isso não significa que toda a cadeia de produção esteja funcionando de maneira profissional e sustentável.
Direitos autorais e responsabilidade institucional
O artigo também chama a atenção para a circulação de partituras e arquivos digitais. A facilidade de compartilhar um material não significa que exista autorização para reproduzi-lo, distribuí-lo ou utilizá-lo publicamente. O acesso a uma obra e a permissão para utilizá-la são questões distintas.
Nesse contexto, respeitar os direitos autorais não deve ser visto apenas como uma obrigação jurídica, mas também como parte de uma cultura de valorização do trabalho intelectual.
O autor, entretanto, evita atribuir toda a responsabilidade aos regentes. Muitas vezes, eles precisam preparar concertos e desenvolver temporadas sem dispor de orçamento específico para adquirir partituras ou contratar compositores, arranjadores e transcritores. O problema, portanto, também está nos modelos de gestão que não contemplam adequadamente os custos da produção artística.
Novos caminhos para as bandas sinfônicas brasileiras
Entre as possibilidades discutidas está a incorporação de profissionais especializados às estruturas dos organismos sinfônicos, como compositores-residentes, arranjadores, transcritores, editores e pesquisadores de repertório.
Essas funções poderiam contribuir para a criação de obras originais, a ampliação do repertório brasileiro, a adaptação de peças às formações instrumentais existentes e a preservação de materiais musicais de qualidade.
A aproximação entre compositores e grupos musicais também permitiria um processo mais integrado de criação e interpretação, no qual o autor pudesse acompanhar ensaios, dialogar com os instrumentistas e aperfeiçoar a obra a partir da experiência prática.
Mais do que uma questão de remuneração individual, trata-se de pensar o repertório como parte de uma política institucional de produção cultural.
Profissionalizar toda a cadeia musical
A reflexão de Roberto Farias conduz a uma questão fundamental: uma instituição não pode ser considerada plenamente profissional se o reconhecimento do trabalho não alcançar todos os agentes responsáveis pela realização de sua atividade artística.
Valorizar a música brasileira significa também criar condições para que seus compositores possam produzir, seus arranjadores sejam remunerados e suas obras circulem de maneira legítima. Isso exige planejamento, orçamento, respeito à propriedade intelectual e uma mudança na maneira como as instituições compreendem a produção do repertório.
A questão vai além da relação entre um regente e um compositor. Ela envolve a sustentabilidade da criação musical, a gestão cultural e o futuro das bandas sinfônicas no Brasil.
Profissionalizar o repertório é também profissionalizar a música. Afinal, se a execução musical exige trabalho especializado, a criação das obras que tornam essa execução possível também merece reconhecimento, respeito e condições dignas de realização.
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