O Sarrusofone: um instrumento entre a tradição e a modernidade

Poucos instrumentos revelam tão bem as transformações da música para sopros no século XIX quanto o sarrusofone. Criado na França em meados da década de 1850, o instrumento surgiu para responder a um problema específico: levar às bandas militares a função das palhetas duplas do oboé e do fagote, mas com maior projeção sonora e resistência para ambientes abertos.
Em seu estudo “O Sarrusofone: surgimento, origem, família, função e desaparecimento da instrumentação da banda sinfônica”, Roberto Farias apresenta a trajetória desse instrumento, desde sua origem e organização em uma família completa — do sopranino ao contrabaixo — até sua progressiva substituição por outros instrumentos.
Uma das questões mais interessantes abordadas é a relação entre o sarrusofone e o saxofone. Apesar da aparência semelhante, ambos possuem diferenças organológicas fundamentais: o sarrusofone utiliza palheta dupla, enquanto o saxofone utiliza palheta simples. Sua identidade está, portanto, muito mais ligada à tradição do oboé, do fagote e do contrafagote.
O desaparecimento do sarrusofone também merece atenção. A consolidação do saxofone, o aperfeiçoamento do fagote e do contrafagote, a ausência de uma tradição pedagógica ampla e a posterior padronização da banda sinfônica fizeram com que sua função fosse progressivamente absorvida por outros instrumentos.
Assim, o sarrusofone não deve ser visto simplesmente como um instrumento que “fracassou”, mas como um instrumento de transição, parte importante da história da transformação da banda militar oitocentista na moderna banda de concerto.
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